sábado, 31 de outubro de 2009

Besouro

A expectativa, muitas vezes, é proporcional à decepção por mais boa vontade que tenhamos com o produto a ser analisado. "Besouro", sem qualquer exagero, era o filme mais esperado pelo público brasileiro em 2009. Referendado pelo ótimo trailer que fez sucesso na internet, com milhares de visualizações e por criar um super herói genuinamente brasileiro.


No entanto, a grande expectativa e a louvável idéia de um herói capoeirista se dissipa tão rapidamente quanto os movimentos de Besouro. Os minutos iniciais são um banho de água fria no espectador mais atento. Utiliza-se em demasia o recurso textual para contextualizar a história e de forma redundante, ao invés de nos mostrar através de imagens.

Os diálogos iniciais são fraquíssimos e as atuações da mesma forma. O roteiro é burocrático, arrastado, tornando um filme sobre o lendário capoeirista do recôncavo baiano pouco ágil, com situações e conversas que pouco acrescentam à trama.

As boas passagens ficam por conta do ótimo ator Irandhir Santos, o Noca de Antônia. A cena que mistura capoeira e sensualidade entre Besouro (Aílton Carmo) e Dinorá (Jessica Barbosa) é outro destaque positivo do longa-metragem do diretor iniciante em longa-metragens, mas com sólida e premiada carreira publicitária, João Daniel Tikhomiroff. A marcante trilha sonora cantada por Gilberto Gil e a Nação Zumbi deve também ser valorizada.

Mas os problemas na direção, roteiro e elenco ofuscam de forma cruel a bela iniciativa e o que há de interessante no filme. A feira popular, o surgimento do herói, o comportamento dos vilões, tudo é abordado de modo muito inverossímel. Falta a Tikhomiroff o traquejo cinematográfico. A fotografia em nenhum momento explorou a paisagem da Chapada Diamantina e as lutas não tiveram seu caráter épico, devido aos planos fechados e claustrofóbicos. Mas mesmo de forma atabalhoada, é uma homenagem à Bahia e a nossa cultura tão peculiar.

Nota: 4,5

terça-feira, 6 de outubro de 2009

Salve Geral

No fim de semana do dia das mães do ano de 2006 não há um paulistano que não se lembre do pânico que os ataques do PCC (Primeiro Comando da Capital) geraram na população. O novo filme de Sérgio Rezende - Salve Geral - aborda justamente esse período marcado por muita violência e medo.

O interesse em conferir o mais novo drama nacional ganhou um gás novo com o anúncio de que o longa-metragem está na disputa para ser um dos indicados ao Oscar 2010. Assim como no filme anterior de Rezende (Zuzu Angel), o fio condutor é a preocupação e procura de uma mãe - muito bem interpretada por Andréa Beltrão - por seu filho, interpretado pelo jovem e competente ator Lee Thalor.

Após se mudarem para um bairro suburbano, devido à dificuldades financeiras, a vida de professora de piano Lúcia (Andréa Beltrão) e o seu filho Rafa (Lee Thalor) mudam completamente quando ele comete um homicídio por acidente, sendo preso em flagrante, e passa a conviver no presídio com os integrantes do PCC.

Em uma de suas visitas ao presídio, Lúcia conhece a advogada Ruiva(Denise Weinberg), que na verdade integra o Comando. A mãe de Rafa passa a realizar pequenos favores, a entregar encomendas para dos presidiários do PCC e acaba se envolvendo emocionalmente com um dos líderes do movimento. A grande falha do filme está justamente nesse ponto. Lúcia em nenhum momento questiona o que a Ruiva lhe propõe, assim como não há sequer nenhuma preocupação ética e moral quanto à sua relação com o preso, conhecido como o Professor. Rezende reduz o envolvimento de Lúcia com PCC de um modo muito mecanicista. Atribui-se esse atitude ao seu desespero em tentar tirar seu filho da prisão, o que tornou vulnerável sua incorporação ao sistema criminoso.

Acredito que o que contribuiu para Salve Geral ter superado outras nove produções nacionais na disputa por uma indicação do Oscar foi o seu roteiro. É o grande trunfo do filme. Muito bem elaborado, ágil e que soube contextualizar os motivos que levaram aos ataques violentos. Rezende construiu um drama policial sem fazer uso de muitas cenas de violência e sem perder o bom ritmo que permeia o longa.

As atuações são outro ponto forte. Andréa Beltrão e Denise Weinberg estão inspiradíssimas e Lee Thalor está ótimo. O que não torna Salve Geral acima da média é o fato de não ir além dos conhecidos acontecimentos. As discussões morais são muito tímidas. Os melhores diálogos ficam por conta de Rafa e o seu companheiro de cela Xizão (Michel Gomes). Duas das cenas mais representativas ficam por conta dos dois. A primeira é quando Xizão mostra o manifesto do partido, no entanto Rafa alerta para um erro de concordância e Xizão conta que não é pra mexer no texto porque o PCC quer assim e o correto vai passar a ser daquele jeito. Em outra cena, ao ser questionado sobre sua fé nos ideais do partido, Xizão adverte - Se eu não acreditar nisso eu vou acreditar em quê?

Rezende consegue construir muito bem o caldeirão em ebulição que se transformou a capital paulista, aliada a intensa e competente trilha sonora do estreante em cinema Miguel Briamonte. Porém, o filme em si pouco acrescenta a filmografia sobre esta temática já abordada exaustivamente pelos cineastas brasileiros que é a violência urbana. Uma história muito bem contada, mas que não se propõe a alçar voos maiores.

Nota: 7,0


sábado, 12 de setembro de 2009

A Onda

A Alemanha, há um bom tempo, vem se notabilizando em produzir filmes politizados. Essa preocupação reflete a culpa que os alemães ainda carregam, em virtude do sofrimento que eles causaram ao mundo. Edukators, Adeus, Lênin!, A Vida dos Outros e agora A Onda,, do diretor Dennis Gansel, são belos exemplos disso.


O jovem e despojado professor Rainer Wegner - que no primeiro dia de aula vestia uma camisa dos Ramones - é informado que irá ministrar um curso sobre autocracia, embora esperasse ensinar anarquia aos seus alunos.

Diante de jovens desinteressados e que não conseguiam compreender os mecanismos de um sistema fascista, o docente decide demonstrar na prática o significado da autocracia.

Para este intento, é definido um nome para o movimento, um uniforme, um cumprimento e uma insígnia. O professor é então nomeado o líder do grupo e a cada pequena imposição vê as suas intenções funcionando perfeitamente, porém as consequência fogem do seu controle e o movimento vai as ruas, cerceando a individualidade e o livre arbítrio dos seus membros, em nome da união e da coletidade. Rapidamente, os alunos que não fazem parte da Onda são discriminados e até violentados.

Acontecido, originalmente, na Califórnia no ano de 1967, o experimento havia sido denominado de Terceira Onda e proposto pelo professor Jones, de história, ao tentar explicar o funcionamento do fascismo para seus alunos. O docente simulou um microcosmo social, composto por ele e seus alunos, através do término da democracia para elevar o poder da unidade, seguindo os preceitos "poder pela comunidade", "poder pela disciplina", "força pela ação" e "força pelo orgulho".

A Onda é um drama muito bem realizado que toca em pontos importantes, através de uma crítica social contundente ao ser humano e as novas gerações, facilmente manipuláveis que estão a vagar na busca de uma ideologia que faça sentido para elas próprias, que as guiem e as unam, tendo em vista algo maior. A grande falha da produção é a construção dos personagens, sobretudo os adolescentes, que se apresentam sem profundidade alguma e até certo ponto inverossímeis. Vários estereótipos de filmes colegiais são criados no decorrer da trama. Já o professor Rainer, interpretado Jürgen Vogel, se mostra muito bem construído e equilibrado. Uma grata surpresa.

O longa-metragem levanta questionamentos absolutamente pertinentes que podem ser considerados como irreais e distantes da realidade atual, mas através da idiotização e massificação do pensamento juvenil, proporcionado pela mídia, torna-se algo mais tangível do que nos parece. A personalidade e individualidade de cada um é facilmente desprezada, tendo em vista algo maior, que lhes exima de responsabilidade. Gansel mostra o quanto uma geração carente, imatura e vazia é um terreno fértil para a instauração do totalitarismo.

Nota: 7,5